“Judy: muito além do arco-íris”: lições sobre imagem que atravessam a tela

Publicado em 17/02/2020

O cinema é uma fonte inesgotável de diversão e oportunidades para compreendermos melhor a natureza humana. Na última edição do Oscar, a atriz Renée Zellweger foi consagrada com o prêmio de Melhor Atriz pelo filme "Judy: muito além do arco-íris", cinebiografia de Judy Garland. A obra é uma verdadeira aula para nós, profissionais da imagem, que lidamos com tantas questões subjetivas no dia a dia de nosso trabalho, além de ter um figurino de encher os olhos.

Apaixonada por cinema que sou, fui assistir ao filme, dirigido por Rupert Goold. Confira, a seguir, algumas lições da obra para quem deseja ir além da imagem.



Experiências na infância e autoimagem: o caso de Judy Garland

"Judy: muito além do arco-íris" se passa em meados de 1968, três décadas após a estreia de "O Mágico de Oz" (filme que consagrou a carreira de Garland) e seis meses antes da morte da atriz. Sem fortuna ou compromissos na agenda, Judy precisou partir à Londres, onde fechou contrato com o teatro Talk of the Town. Em meio às apresentações, ela enfrentava os dramas de seus relacionamentos e graves problemas de saúde.

O filme sugere que as dificuldades emocionais e psíquicas de Garland, que afetaram sua saúde mental e sua carreira, remontam a uma infância conturbada e uma família desajustada. Aos três anos, Garland já cantava ao lado das irmãs em uma companhia de dança e viajava pelos EUA com a mãe. Como apontam as críticas e artigos sobre o filme, os problemas que Judy tinha com própria aparência começaram a ser desenvolvidos já nesta etapa.

Embora a cinebiografia se concentre no último ano de vida de Garland, em flashs, descobrimos como, aos 16 anos, ela foi praticamente proibida de comer, sendo submetida a dietas severas durante as gravações de "O Mágico de Oz". Louis Mayer, chefe e co-fundador da MGM, criou uma espécie de liga/desliga para sua estrela, que, faminta, era 'alimentada' por anfetaminas para conter o apetite e mantê-la acesa durante as filmagens — que chegavam a dezoito horas consecutivas.

À noite, os barbitúricos serviam para apagar Judy, vítima também do assédio moral do executivo. Mayer fazia comentários sobre a imagem da adolescente que tiveram efeitos desastrosos na sua vida psíquica.

Em um dos flashbacks, por exemplo, para convencê-la a não abandonar os estúdios e o filme, Mayer afirma a uma assustada Judy Garland que ela não era a menina mais bonita, nem tinha o cabelo, os olhos ou os dentes mais belos, nem era a mais inteligente, mas tinha uma coisa que a diferenciava das demais: uma voz maravilhosa. Em seguida, Mayer novamente volta a ofendê-la, dizendo que ela se tornaria "uma qualquer" se não fosse o cinema. Um claro sinal de abuso verbal: ofensas seguidas de um elogio, que age como uma espécie de "consolo".

O que Judy Garland adolescente escutou dele influenciou a percepção de sua autoimagem, aspecto que ela levou para a vida adulta, os relacionamentos amorosos e o trabalho. Além do assédio moral, o filme (baseando-se no argumento de críticos e biógrafos) sugere que Judy foi vítima do assédio sexual do dono da MGM.

Lembramos que nem todas as pessoas com experiências difíceis na infância estão fadadas a uma vida de relacionamentos conturbados ou trabalhos frustrantes. Não podemos nos limitar a análises tão simplistas no acompanhamento de nossos clientes. O caso de Garland nos ajuda a compreender como algumas atitudes e comportamentos relacionam-se com esses episódios, mas enfatizo: cada caso é um caso.

Padrões estéticos que causam disfunções com a imagem

Judy Garland, desde a adolescência, não correspondia aos padrões de beleza e imagem dos estúdios de cinema e sofreu uma série de abusos decorrentes dessas cobranças. Segundo Sigmund Freud, pai da psicanálise, a relação do homem com o próprio corpo é uma das maiores fontes de sofrimento. Vivemos em uma cultura construída sobre uma imagem de perfeição, harmonia e plenitude, que exclui tudo o que não corresponde ao ideal do bom funcionamento. Aqueles que não se ajustam a esses padrões cada vez mais irreais e impossíveis sofrem emocional e fisicamente.

Em diversas cenas, o filme destaca a magreza de Judy, sugerindo que a atriz desenvolveu anorexia, um distúrbio de autoimagem. A escolha dos diretores mostra a preocupação excessiva da artista com sua imagem, produto das experiências danosas, reais e subjetivas, pelas quais ela passou.

"Judy: muito além do arco-íris" traz uma história comovente, que nos faz refletir como a percepção que temos de nossa imagem está sustentada nas experiências de vida e vivências, muitas delas da infância, e que nos marcam de forma inconsciente. A performance de Renée Zellweger encarnando Judy vale cada minuto do filme. O Oscar foi mais do que merecido!

Se você trabalha com imagem pessoal, corra para a sala de cinema mais próxima! O filme traz um material precioso para refletir sobre a complexidade da autoimagem. A mítica e sublime Judy Garland, que morreu aos 47 anos por overdose de barbitúricos, passou a vida se perguntando quem ela era, qual seu lugar no mundo e quem era aquela imagem no espelho. Para nós, consultores de imagem, essas são questões que não cessarão de aparecer.

Foto: Daniel Apodaca on Unsplash