Fim dos likes: seria o fim da fogueira das vaidades?

Publicado em 18/07/2019

Na última quarta-feira, o Instagram iniciou, no Brasil, testes para ocultar as curtidas dos posts no feed. Somos o segundo país a passar pelo teste, o que é uma escolha interessante, dado que somos campeões em números de cirurgias plásticas e destaque em consumo de produtos de beleza. O Instagram afirma que a alteração foi realizada em prol da saúde mental dos usuários, embora alguns especialistas em redes sociais já defendam que a mudança visa angariar novas interações e maior número de sessões.

Faço parte da turma que se preocupa com o conteúdo que posta e tenho muito orgulho disso. Vejo cada post como uma oportunidade para produzir algo relevante e gerar valor para meus seguidores. Penso tudo com o maior carinho, e, dentro das minhas possibilidades, vejo ali um espaço realmente proveitoso para trocas.

Sendo um território das aparências, o Instagram me provoca reflexões. Todos sabemos o quanto as pessoas criam um verdadeiro faz-de-conta de suas rotinas para se adequar ao estilo de vida "instagramável". As reais consequências disso têm sido sentidas em todo o mundo, e a alteração na ferramenta pode nos ajudar a repensar seu uso e seus impactos.


Qual é o significado dos likes no Instagram?

O "like" do Instagram tem uma gama imensa de significados. Embora seja apenas um botão, ele pode ser entendido de diversas maneiras, dependendo do tipo de relação que se tem com o produtor de conteúdo e do repertório de cada um. Quem está paquerando sabe: receber uma curtida às 1h da manhã tem um significado completamente diferente de recebê-lo ao meio-dia. E, como em toda interação, uma mensagem pode muito bem ser mal-interpretada.

Ontem li nas redes uma frase de autor desconhecido e que me chamou a atenção: “Like não é afeto, seguir de volta não é amizade e rede social não é vida social." Pergunto-me: qual é o "valor interacional" do like em uma rede social que ainda se sustenta em valores ilusórios — onde uma viagem à Europa é índice de sucesso, mesmo que o viajante em questão esteja com depressão, vivendo um relacionamento abusivo ou sofrendo com um distúrbio alimentar? As interações vão, assim, se sustentando em cima da superficialidade, um território fértil para sentimentos como a inveja, a ansiedade e a tristeza.

Há, ainda, o fator agravante da grande quantidade de informações e a necessidade cada vez maior de consumi-los rapidamente. E todo mundo sabe que qualquer refeição apressada pode causar indigestão! Quantas fotos curtidas por você realmente ganharam a sua atenção? Você leu as legendas? Observou os detalhes da imagem?

Nesse sentido, as curtidas potencializam exibicionismo dos usuários. Trata-se, sempre, do ser visto. Mas ser visto exatamente por qual motivo? Essa verdadeira fogueira das vaidades gera um mal-estar que, muitas vezes, tentamos acobertar com ainda mais curtidas. Freud, pai da psicanálise, já havia nos advertido sobre os males que isso poderia nos causar.

O perigo da vaidade e do narcisismo nas redes sociais

As redes sociais afetam significativamente os relacionamentos presenciais, fundamentais para a experiência humana. Estamos em constante busca de atenção, tornando-nos, cada vez mais, reféns da aprovação do outro para sermos felizes.

Essa necessidade de aceitação do outro acontece no âmbito familiar, pois estamos sempre em busca de segurança. Contudo, nas redes sociais, a nossa segurança fica nas mãos de desconhecidos. Desejamos as curtidas (e a aprovação) de pessoas de quem, na maioria das vezes, não sabemos nada a respeito. Isso sem falar na ansiedade que a caça aos likes provoca. Se um post, por motivos variados, não angaria a quantidade de curtidas que se espera, ele imediatamente perde o seu valor.

Esse encurtamento do tempo subjetivo tem consequências funestas sobre nós. A validade de nossos momentos está condicionada à boa-vontade dos algoritmos e aos dedos de nossos seguidores, incluindo aquela colega de trabalho com quem você mal conversa.


A imagem para além da aparência

Para tornar a minha relação com as redes mais proveitosa, busco me preocupar mais com o conteúdo do que com a forma e valorizar mais a qualidade em detrimento da quantidade.

Pode parecer paradoxal, mas essa valorização da aparência a qualquer preço é justamente o que busco combater com o meu trabalho. Como psicanalista e consultora de imagem, compreendo que a imagem tem raízes mais profundas. Fatores conscientes e inconscientes perpassam a aparência, o que também se aplica no retrato que fazemos de nossas vidas nas redes sociais.

A remoção das curtidas no Instagram é uma grande oportunidade para repensarmos o nosso uso da rede. Se foi pela boa intenção ou não, a verdade é que agora precisaremos pensar em novas formas de interação e de mensuração de resultados. O conteúdo precisa ir além, muito além do número de curtidas.

Quem sabe agora a gente reaprende a curtir a nossa própria vida, as nossas conquistas, o tempo com a família, o café com o amigo, o banho de cachoeira, os pés no chão, a música, o beijo, o silêncio, sem tanta necessidade de aprovação alheia? Convido você a fazer esse exercício!

Fotos: Igor Rand e George Pagan III on Unsplash