Os chinelos de Jair Bolsonaro: contestação ou deboche?

Publicado em 18/02/2019

No último dia 14, em meio a escândalos e reformas, um traje utilizado no Palácio Oficial da República protagonizou capas de jornais e postagens nas redes: o presidente Jair Bolsonaro recebeu ministros, representantes da equipe econômica e o major Vítor Hugo, líder do governo na Câmara, usando um pijama estranhamente desproporcional e chinelos. Para um candidato alinhado à busca pela tradição, especialmente no aspecto moral, o visual torna-se ainda mais paradoxal. O usuário Christian Edward Lynch conseguiu sintetizar a situação em uma única frase: "...temos [...] no poder um estranho conservadorismo, que não é da tradição, mas do achincalhe."

Nessa estranha combinação, o presidente usou também uma camiseta falsificada do Palmeiras para comandar a reunião. Os eleitores mais entusiasmados elogiaram a "humildade" de Bolsonaro, mas o Fórum Nacional de Combate à Pirataria alertou para os malefícios de artigos que fomentem esse tipo de comércio, dado que ele tem fortes ligações com o tráfico, roubos e outros tipos de crimes, algo que o presidente afirma se comprometer a combater.

O desleixo com o traje alinha-se com as atitudes do presidente diante do público, especialmente quando se trata da imprensa. Afinal, um representante escolhido democraticamente pela população brasileira e que se se elege com a proposta de resgatar a autoridade do Estado não poderia fomentar tuítes agressivos e debochados, comunicar-se informalmente com emojis diante de crises políticas e demonstrar descuido com a aparência, mas Bolsonaro tem subvertido todas essas "regras". Ocorre que, por elas serem vistas como meras "formalidades", algumas pessoas vêem nesses deboches um desmanche das tradições, atreladas, na mentalidade de algumas pessoas, à corrupção e ao abandono dos interesses populares. Como bem temos observado pelas notícias, contudo, o "despojamento" do novo presidente pouco se relaciona com o questionamento de velhas práticas de poder.

Pijamas e chinelos: contestação no limiar do desrespeito

Como Christian muito bem coloca, receber os ministros no Palácio, diante da imprensa, é um ato público. Isso pressupõe que o chefe do Estado abandone sua esfera privada para REPRESENTAR a nação. Nenhum trabalhador sai para o ambiente de trabalho de pijamas, não só porque as empresas não o permitem, mas também porque todos nós sabemos (ou deveríamos saber) sobre a importância da imagem para conquistarmos oportunidades no mercado. Ao posar de chinelos e pijamas amarrotados para uma reunião no Palácio Oficial, Jair Bolsonaro demonstrou profundo desrespeito a todos nós, que contribuímos com impostos para que ele represente a imagem de nossa nação.

Como eu disse no artigo sobre imagem e respeito ao próximo, não adianta ter os discursos mais impactantes se você não age de maneira coerente com eles. O que você faz exerce um poder muito maior sobre a sua imagem do que o que você diz. Até o momento, as atitudes de Bolsonaro somente têm servido a uma potente cortina de fumaça, capaz de ocultar investigações, atitudes equivocadas de sua equipe e notícias potencialmente danosas para o governo dele. Se é estratégia ou não, a verdade é que ainda fazemos questão de mais respeito à nossa profissão e ao cargo que o povo brasileiro concedeu a ele.