Jacinda Ardern: liderança além do véu

Publicado em 26/03/2019

Nas últimas semanas, dois atentados em diferentes partes do mundo nos deixaram sem palavras: em Suzano (SP), no dia 13 de março, dois jovens entraram encapuzados em uma escola, mataram dez pessoas e deixaram 11 feridas; no dia 15 do mesmo mês, atentados contra duas mesquitas deixaram 50 mortos na Nova Zelândia. Ambos os crimes foram motivados por discursos de ódio e resultaram na veiculação de imagens chocantes pela internet. Contudo, o tratamento dos líderes políticos junto à imprensa e à população foram completamente diferentes.

No Brasil, as autoridades desviaram do debate em torno do porte de armas e pouco mostraram empatia pelas vítimas e seus parentes. A imprensa, por sua vez, divulgou, de maneira irresponsável, os registros do atentado nas mais diversas plataformas. Na Nova Zelândia, a primeira-ministra Jacinda Ardern apressou-se em pedir que as imagens, feitas pelos próprios atiradores, não fossem veiculadas e, de maneira mais que simbólica, encontrou as vítimas e seus parentes utilizando um hijab (véu) sobre a cabeça.

Não é a primeira vez que Jacinda, a mais jovem chefe de governo do mundo, impressiona por sua liderança empática e, sobretudo, humana. Em outubro de 2018, Jacinda levou a filha, Neve, de apenas 3 meses, para uma reunião da ONU em Nova York. O marido, o apresentador de TV Clarke Gayford, permaneceu ao lado dela, cuidando da pequena enquanto Jacinda discursava. A primeira-ministra se destacou por mudar a legislação para ajudar pais e mães e defende abertamente seus valores, tendo sempre em vista os interesses populares. O uso do hijab para visitar a comunidade islâmica, contudo, chamou-me a atenção. Em um momento histórico marcado pela xenofobia, o gesto de Jacinda colocou-a sob o alvo de islamofóbicos. Ainda assim, ela preferiu encontrar as vítimas do atentado e seus familiares pessoalmente, abraçando-os e ouvindo-os.

O significado do hijab

O hijab ou véu é, frequentemente, mal-interpretado pelos ocidentais. De fato, especialmente após os movimentos populistas que marcaram o Oriente Médio nos anos 70, algumas comunidades muçulmanas o utilizam para oprimir mulheres com uma grande pressão moral. Contudo, como defendem estudiosos da cultura islâmica, idealmente, ele é uma questão de escolha entre as muçulmanas, sendo uma ferramenta poderosa de expressão. E, devido à onda de ódio aos imigrantes e a leituras empobrecidas, muitas mulheres muçulmanas têm sido atacadas por usar a peça. Infelizmente, a censura e a perseguição aos muçulmanos já ganhou as vias legais, e na Bélgica, França, Áustria, Letônia, Bulgária e Holanda, o uso dos véus é proibido.


Liderança mediada pela empatia e pela autenticidade

Jacinda Ardern soube administrar, como poucos líderes, as imagens que se projetavam em torno do atentado e o impacto delas sobre a comunidade. Ao usar um hijab e encarar as vítimas e seus familiares nos olhos, ela se colocou como um deles. Ela também foi ágil ao pedir que o nome dos terroristas responsáveis, bem como as suas fotos e vídeos, não fossem divulgados. Assim, os criminosos, que pretendiam se destacar com este ato brutal, aos poucos, cairão no esquecimento. O que fica estampado nas capas de jornais é o rosto de uma mulher determinada a unir a sua comunidade em torno de valores como a solidariedade e o afeto, mesmo após uma grande tragédia.

"I stand in your shoes" é uma expressão em inglês que significa algo como "coloco-me em seus sapatos". A utilizamos quando queremos demonstrar empatia por uma pessoa ou situação, colocando-nos em seu lugar. Em meio a um cenário de perseguição aos imigrantes, e, em especial, aos muçulmanos, Jacinda Ardern escolheu vestir, literalmente, a dor das vítimas da tragédia, lembrando a todos que ela não representa apenas uma parcela de neozelandeses, mas todos aqueles que exercem a cidadania no país. Uma imagem revolucionária num mundo em que líderes políticos trajados com ternos caríssimos (ou pijamas e chinelos!) pouco dizem sobre as reais necessidades da população. Ficam aqui os meus votos por um futuro de lideranças tão autênticas quanto a de Jacinda.

Fotos: Scroll in e Reuters